O conformismo é o carcereiro da liberdade e o inimigo do crescimento - John Fitzgerald Kennedy

sábado, 16 de maio de 2009

Os verdadeiros piratas!

A notícia investigada pela TVI, também denunciada pelo jornal Público, reporta viagem de cerca de 40 médicos à Malásia a um congresso de ginecologia, que incluiu no programa a visita a uma ilha a 700 quilómetros de distância em que os clínicos disfrutaram de umas férias pagas a LangKawi, uma ilha paradisíaca a cerca de 700 quilómetros do local do congresso, a pretexto de assistir ao dito congresso. No entanto, os referidos "Doutores" em notória viagem turística, parecem ter sido pagos pelo laboratório de genéricos J. Neves que patrocinou a ida ao congresso, e que se transformou em visita turística paradisíaca. O bastonário Pedro Nunes deixou o aviso: vão ser alvo de processos disciplinares que podem conduzir à suspensão temporária. A viagem ocorreu em Novembro de 2006, por isso é possível aplicar estas sanções (que prescreveriam em Novembro deste ano), explicou.“Há aqui manifestamente a suspeita de um crime. A ordem não é um clube de amigos, é um regulador. Os meus colegas têm a obrigação de saber que aquilo não é permitido desde há alguns anos. Segundo um parecer jurídico que pedimos há algum tempo, isto pode ser entendido como um crime de corrupção activa (da parte do laboratório se se provar que pagou viagens não relacionadas com a formação dos médicos) e, do lado dos médicos, como corrupção passiva para acto lícito ou corrupção passiva para acto ilícito”. Em LangKawi os médicos vestiram-se de piratas e as imagens do CD que o laboratório terá distribuído como recordação foram profusamente exibidas na peça da TVI, para consternação de Pedro Nunes. Ora, esta não é uma situação isolada. Na última semana, a TVI revelou como muitos congressos médicos são afinal simples disfarce para actividades turísticas. A Ordem dos Médicos (OM) já fez queixa ao Ministério Público (MP), mas a verdade é que há mais de um ano e meio que o MP apreendeu documentação sobre o assunto, mas o processo nunca mais andou.Mas não só, a Indústria farmacêutica treina os delegados para obterem compromissos de prescrição. É na busca desses compromissos que normalmente os delegados oferecem a médicos o patrocínio para congressos, viagens turísticas disfarçadas de congressos e outras ofertas, umas legais, outras na fronteira da legalidade e outras ainda manifestamente corruptas, como a oferta de dinheiro vivo. Ora na minha modesta opinião, este aproveitamento privado de uma situação de aparente vantagem profissional para o mero divertimento à custa de um laboratório, não é só imoral como também ilegal. O peso destas atitudes de classes profissionais privilegiadas roçam a desconfiança das populações e contribuem para a estigmatização da sociedade portuguesa. A lisura profissional e pessoal deixaram de ser condimentos para a construção da cidadania. Não existe a mera noção do conceito de "do the right thing". Apenas o crescimento da cultura do "espertalhão", que continua a fazer mossa.

2 comentários:

Anónimo disse...

Da mesma forma que concordou com o Daniel Oliveira no seu post sobre educação e no risco de casos isolados serem generalizados a classes profissionais, na classe médica passa-se o mesmo: um caso isolado que é já tomado como prática normal da classe. Não acha incongruente a sua indignação??

José Coelho disse...

Anónimo, desculpo-me pelo tempo de demora na resposta, mas deparei-me com um problema na publicação dos comentários, que foi finalmente corrigido. Relativamente ao seu comentário, devo dizer que a 1ra parte do post foi única e exclusivamente dedica à exposição dos factos extensos em questão, reservando a minha opinião para a parte final do discurso. E relativamente ao que escrevi, não vislumbro nenhuma incongruência por 2 razões: o post que publiquei de Daniel Oliveira, de quem por vezes discordo no seu blogue, reporta-se a uma situação concreta de histeria que há muito se tem verificado na opinião pública acerca da educação em Portugal, transformando estes casos isolados em massas de considerações absurdas acerca do estado das escolas do país, transformando excepções em generalizações; em 2do lugar, na opinião que expressei, em nada generalizei, pelo contrário! Referi, aliás, que estas atitudes dos médicos em questão, contribuem exactamente para a estigmatização da sociedade em Portugal e para a desconfiança das populações nestas e noutras classes profissionais de relevo. Em nenhum momento me referi à classe médica como um todo, mas sim a determinadas acções tornadas públicas por sectores privilegiados da sociedade, em que estes médicos estão obviamente incluídos. E convenhamos, ilegalidades não é o mesmo que ausência de profissionalismo e de educação! Escreveria o mesmo sobre qualquer caso semelhante, que tenho aliás denunciado e que infelizmente têm por hábito surgir cada vez mais frequentemente.