
As estrelas do Verão este ano tiveram menos protagonismo nas montras das farmácias. Parte das soluções rápidas para emagrecer, dos cremes protectores e dos autobronzeadores teve de resignar-se com os expositores interiores e os que resistiram passaram a conviver lado a lado com gel desinfectante, máscaras, toalhetes anti-sépticos e bactericidas que antes apareciam apenas nas séries de médicos. Uma súbita obsessão com a higiene? Nada disso. A primeira pandemia do século XXI - a gripe A (H1N1) - trouxe uma oportunidade de negócio única num ano de crise económica.
Um contexto que as empresas souberam capitalizar. Até porque as grandes compras não foram centralizadas e cada escola, empresa ou serviço público acabou por tentar arranjar sozinho a melhor solução. Mas há excepções: em Guimarães, a Secundária Francisco de Holanda juntou-se às outras escolas secundárias do concelho para tentar negociar um preço mais baixo com os fornecedores.
Do lado dos particulares, as compras também tiveram aumentos astronómicos no número de embalagens e no valor - sendo que este último registou subidas mais significativas. As vendas de desinfectantes para mãos nas farmácias - o produto mais procurado - cresceram cerca de 280 por cento entre Agosto de 2007 e Julho de 2008 (24.923 embalagens) e Agosto de 2008 e Julho deste ano (95.838). Em euros, isto corresponde a um aumento de quase 70 mil euros para mais de 435 mil, isto é, de cerca de 520 por cento, segundo dados fornecidos ao PÚBLICO pela consultora IMS Health Portugal.
Se em 2009 olharmos para as vendas mês a mês, percebemos que há um claro aumento em Julho. Em média, de Janeiro a Junho, foram vendidas 3200 embalagens por mês. Em Julho, o número passou para 45.000 (mais 1300 por cento). Isto traduziu-se numa passagem de uma venda média de cerca de 12.000 euros para 277.000 (mais de 2200 por cento).
Os particulares também parecem estar a aderir aos novos hábitos e os hipermercados readaptaram-se. Em quase todos é possível encontrar prateleiras que centralizam gel e outros produtos desinfectantes em modelos que vão desde do tamanho de bolso a versões quase industriais. A Renova, por exemplo, criou várias embalagens de gel desinfectante mas outros produtos que já existiam como toalhetes com álcool com aroma de alfazema sofreram um grande impulso, como disse ao jornal PÚBLICO Luís Saramago, director de marketing. Sobre o futuro, acredita que muitos hábitos vieram para ficar.
Primeiro foram os antivirais Tamiflu, da Roche, e Relenza, da GlaxoSmithKline, a dar um impulso. Depois a pandemia ganhou força e, perante alguns casos de resistência aos medicamentos, passou-se a falar numa nova vacina, que poderá render 1700 milhões de euros a cada produtor. Num ano de grave crise, os laboratórios não podiam ter tido uma ajuda maior para reanimar as cotações na bolsa. Desde 1 de Abril até final de Setembro, o crescimento da Roche e da GlaxoSmithKline - ambas produtoras de antivirais e esta última também da vacina encomendada por Portugal - não parou. Apesar de os analistas questionarem esta prosperidade, as acções da Roche subiram 19 por cento e as da GlaxoSmithKline 27 por cento. Já a Novartis, produtora da outra vacina aprovada na União Europeia, subiu 32 por cento.As vacinas para a gripe sazonal não são eficazes na gripe A, mas este ano há mais gente a procurá-las por medo de confundirem os sintomas de ambas. Só na primeira semana, entre 15 e 20 de Setembro, as farmácias já administraram mais de um terço das vacinas, num total de quase 420 mil doses - um número superior ao registado em 2008, segundo dados na Associação Nacional de Farmácias. Isto numa altura em que o último balanço do Ministério da Saúde aponta para 1530 novos casos de gripe A na semana entre 21 e 27 de Setembro.E nem as vacinas para doenças do foro respiratório escaparam. Há até quem tenha procurado botas de cirurgião para calçar à porta de casa não se vá dar o caso de o vírus vir nos sapatos e deitar por terra todos os esforços para manter o H1N1 bem longe de casa.